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segunda-feira, 2 de novembro de 2026

Guiné 61/74 - P28484: Notas de leitura (1976): "Fado Alexandrino", por António Lobo Antunes; Publicações Dom Quixote (4) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 15 de Agosto de 2026:

Queridos amigos,
Estamos a passar em revista alguns dos pontos altos deste memorável romance de Lobo Antunes, tudo acontece num jantar de militares que anos antes regressaram de Moçambique, vamos ficar a saber como eram os interrogatórios, os espancamentos e os lugares lúgubres para onde eram lançados os adversários do regime; entramos na vida daquele grupo minoritário maoísta e assim chegamos ao 25 de abril, o alferes casado com uma menina muito bem vai contar-nos a reação de uma família abastada que até pensa logo em pirar-se para o estrangeiro, temem as violações das hordas comunistas que por aí vêm, com russos e checoslovacos à frente; a comandar no quartel da Encarnação, mandou às urtigas as ordens transmitidas pelo coronel Ricardo, este irá tornar-se num espantoso vira-casacas, o temível saneador de coronéis e majores, pôs ao seu serviço o tenente-coronel Artur, este, mais tarde, limpa-lhe o sebo. mas ainda há mais coisas a dizer sobre o PREC.

Abraço do
Mário



Chegámos da guerra, apanhámos o fim do Estado Novo, vivemos o 25 de abril e o depois: como e porquê Fado Alexandrino, de Lobo Antunes, é um notável romance ancorado no fado de ex-combatentes – 4

Mário Beja Santos

Esta obra-prima de António Lobo Antunes teve a sua primeira edição em 1983, vem na sequência de um ciclo de romances que versam a experiência dele como tenente-médico em Angola, a sua vida profissional como psiquiatra, os desabafos sobre a sua vida íntima. "Fado Alexandrino", considerado pela crítica como um dos seus textos fundamentais, justamente premiado, prende-se com a história de um conjunto de militares no período final do Estado Novo, segue-se o 25 de abril e o PREC e o culminar de um tempo de rescaldo, tudo é passado entre um jantar verdadeiramente funambulesco, a passagem por uma boate no Intendente, haverá um surpreendente final, onde não falta uma atmosfera de orgia.

Já aconteceu o 25 de abril, mas não vamos ainda disparados para o processo revolucionário, ficamos a saber que o alferes maoísta foi apanhado pela PIDE, ele diz durante o jantar que da cela se avistava um bocado da praia, a seguir ao muro, o guarda de metralhadora numa espécie de trono de cimento, ele via casas distantes e automóveis minúsculos nas estradas em obras, encontrou no pátio alguém da Organização, o Emílio, reconheceu-o logo apesar dos inchaços das feições, da órbita esquerda destruída, murcha e pendente como um lírio, fora bem espancado de cima a baixo, é um encontro convulsivo, extremamente doloroso, a Organização não dá sinal de vida. Algo tinha acontecido na vida do regime, houvera mudança de carcereiros.

“Já deviam desconfiar da revolução, sugeriu o alferes. Já deviam saber do que se tramava e andavam todos borrados de medo, a tirar as castanhas do lume, a preparar o salto. Querias tratamento de comité central, meu lindo, tortura, pancadaria da boa, isolamento, querias sentir-te importante, certificar-te que existias, mas já não tinhas nenhum interesse para eles. Em certo sentido a revolução lixou-te: fez-te compreender que quando toca a Santos ninguém dá meio tostão furado por ninguém.”

E explica os seus sentimentos de presidiário: “Se alguém comia porrada em vez de mim sentia alívio e inveja ao mesmo tempo, se alguém ia aos interrogatórios em vez de mim sentia alívio e inveja ao mesmo tempo, se alguém era castigado e posto em dieta em vez de mim sentia alívio e inveja ao mesmo tempo.”

É assim que ele rememora Caxias. E depois chegou a liberdade, voltou para o prédio perto da Feira Popular, a tia e a Esmeralda receberam-no, emocionadas.

Começa a vida agitada do período revolucionário, o marido da Inês ouve o telefone tocar, é a mulher que atende, do outro lado a sogra do alferes informa com toda a intensidade melodramática: “Houve uma revolução comunista esta noite, anda tudo aos tiros na Baixa, o povinho quer pendurar nos candeeiros as pessoas decentes. A mãe manda que aa gente vá quanto antes para Carcavelos.”

Segue-se o delírio da fantasia, vêm aí as violações, os roubos dos talheres de prata, engraxadores batendo com as escovas enormes em pobres administradores das empresas indefesos, os russos vão degolar gente, haverá checoslovacos e húngaros a dar tiros por toda a parte. O ambiente em Carcavelos é de gente em pânico, família e amigos, a mãe está consternada:
“Prenderam o governo e o Presidente da República, coitado, educadíssimo, uma joia, que mal é que ele fez seja a quem seja, prenderam centenas de pessoas, há por aí hordas de ateus, desses que dão a pílula às mulheres, a destruir as igrejas, a fuzilar os católicos. Eu aqui não fico, já mandei o pai arranjar bilhetes de avião para todos, não estou para que um bando de selvagens me invada sem mais nem menos a casa e me viole a família inteira.”

Há comentários cataclísmicos sobre prisões de gente de bem, quando os carros já estão atulhados de malas, repensa-se a fuga, descarrega-se a carga, fica-se por enquanto em Carcavelos, voltam as descrições delirantes de violações, de assaltos, de vagabundos a obrar sem cerimónia nos tapetes, o mais que se quiser. Inês, o marido e a filha voltam para a casa de Lisboa.

O soldado do serviço de mudanças entra na conversa, revela que o tio perdera o entusiasmo, a empresa prosperava por inércia, o que lhes tramou a vida foi a trombose da dona Isaura, a tia. Apareceu depois a contabilista, passou a tomar conta não só da escrita como dos negócios, ocupava autoritariamente o lugar da dona Isaura nas refeições. O genro daquela senhora despótica de Carcavelos interrompe a narrativa do soldado para falar das gritarias da sogra: “Leram a pouca-vergonha do jornal? Que vão dar o dinheiro dos ricos a todos, que os católicos se vão poder divorciar, que criam partidos políticos às dúzias. Ó Jaime, você livre-se de me trazer para casa mais porcarias dessas, ainda por cima com fotografias de comunistas horrorosos na primeira página.” Mas o genro também tem outras intimidades para contar, agora ganham uns cobres com relações homossexuais, sobretudo com um pintor, é uma descrição inultrapassável. E ficamos a perceber que a vida amorosa de toda esta gente que está agora a rememorar o 25 de abril fala de alterações profundas, o soldado apaixona-se por Odete, menina muito intelectual que vive lá em casa dos tios, irá saber-se mais tarde que é a maoísta Dália, é ela a controleira do alferes que trabalha no Ministério do Exército.

Mas talvez o episódio mais empolgante aqui narrado seja o que se passou com a vida do nosso tenente-coronel que irá passar a colaborar, como a unha com a carne com o coronel Ricardo, um espantoso vira-casacas que deu em Torquemada, o nosso tenente-coronel Artur recebe uma escabrosa missão:
“Estes revolucionários matam-me de trabalho, vais-me ser utilíssimo aqui. Por vontade de eles, sabes como é, todos os oficiais superiores iam à viola, temos de ceder nalguns casos para ganhar espaço de manobra para os restantes.
Saneamentos, graduações, produções, aí tens o tipo de chatices que te esperam. Consultas as folhas de serviço, elaboras um memorando, formulas o teu parecerzinho, discutimos os dois, em conjunto, a decisão a tomar, eu levo o que a gente resolveu lá acima e os artolas que mandem o que muito bem entenderem, não temos nada com isso.”


É mais um texto espantoso do Lobo Antunes, o vira-casacas torna-se num temível saneador, marca profundas distâncias com o tenente-coronel Artur, quer mais e mais saneamentos: “Assim não vamos lá, Artur: passa-me no mínimo noventa porcento dos oficiais superiores à reserva, eram esses cabrões quem segurava o regime. Dá-me os pareceres que eu carrego-os aqui e ali e convenço os nossos capitãezinhos de fraldas com manias de Guevara: são um bocado esquivos, percebes, mas correndo-lhes a mão pela garupa faz-se deles o que se quiser.” E o tenente-coronel conversa com a sua gente de Moçambique, um dia adoeceu gravemente, visitou-o no hospital, disse-lhe tudo na cara, o moribundo nem se contorceu, o tenente-coronel Artur tirou-lhe o tubo de soro e todo o equipamento que ligava o general Ricardo ainda à vida. A vingança servia-se fria.

Mas que o leitor se acautele, ainda temos 25 de abril e processo revolucionário pela frente.
António Lobo Antunes (1942-2026)

(continua)
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Nota do editor

Vd. post anterior de 26 de outubro de 2026 > Guiné 61/74 - P28465: Notas de leitura (1974): "Fado Alexandrino", por António Lobo Antunes; Publicações Dom Quixote (3) (Mário Beja Santos)

Último post da série de 30 de outubro de 2026 > Guiné 61/74 - P28476: Notas de leitura (1975): Meio século de lutas no Ultramar (Guiné), pelo Tenente-Coronel Bello de Almeida, edição da Sociedade de Geografia de Lisboa em comemoração da Semana das Colónias, 1937 - 1 (Mário Beja Santos)

segunda-feira, 26 de outubro de 2026

Guiné 61/74 - P28465: Notas de leitura (1974): "Fado Alexandrino", por António Lobo Antunes; Publicações Dom Quixote (3) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 13 de Agosto de 2026:

Queridos amigos,
É graças aos transportes de mudanças Ilídio que vamos conhecer a evolução dos acontecimentos na Baixa, a carripana atulhada de móveis vai sendo impedida aqui e acolá de circular, regressa à base, um novo empregado chega ali pelas onze horas e conta o que se passa no Tejo e no Terreiro do Paço, os microfones a pedir insistentemente para que a população fique em casa, uma multidão que se forma ali para os lados do Carmo, um dos presentes do jantar recorda a sua infância, passada naqueles sítios, chega o general do monóculo, mais tarde sai uma viatura militar que transporta o fim do regime em direção à Pontinha, naquele dia, viremos a saber no romance Fado Alexandrino, que mudou a vida de toda a gente, de tenente-coronel a soldado houve amores e desamores, houve quem partiu para o exílio, e até quem defendia o Estado Novo se declarou prontamente estar ao lado da revolução, é aquela longa metáfora, permanentemente repetida, dos vira-casacas.

Um abraço do
Mário



Chegámos da guerra, apanhámos o fim do Estado Novo, vivemos o 25 de abril e o depois: como e porquê Fado Alexandrino, de Lobo Antunes, é um notável romance ancorado no fado de ex-combatentes – 3

Mário Beja Santos

Esta obra-prima de António Lobo Antunes teve a sua primeira edição em 1983, vem na sequência de um ciclo de romances que versam a experiência dele como tenente-médico em Angola, a sua vida profissional como psiquiatra, os desabafos sobre a sua vida íntima. Fado Alexandrino, considerado pela crítica como um dos seus textos fundamentais, justamente premiado, prende-se com a história de um conjunto de militares no período final do Estado Novo, segue-se o 25 de Abril e o PREC e o culminar de um tempo de rescaldo, tudo é passado entre um jantar verdadeiramente funambulesco, a passagem por uma boate no Intendente, haverá um surpreendente final, onde não falta uma atmosfera de orgia.

Digo e repito que encontrei neste romance algumas das páginas mais fulgurantes sobre os acontecimentos vividos em 25 de Abril, Lobo Antunes pretexta uma mudança que vai passar pela Baixa, não resisto a transcrever alguns parágrafos que revelam tal escrita vigorosa, mesmo incandescente, o tio do soldado vai ao lado do motorista, que ele chama o velho, começam a encontrar infantaria nas esquinas, carros de assalto, militares de capacete de bazuca ao ombro, um tenente novinho mandou-os parar:
“Trânsito cortado, amigos, Tenho uma entrega urgente no Chiado, respondeu o tio, não é a nossa camioneta que vos vai estorvar, recuaram, deram meia volta e meteram pelo Entreposto, pelo Rato, pela Escola Politécnica, o soldado ligou a telefonia e as marchas e as cantigas à viola atroaram a cabina onde tudo vacilava e vibrava, a música interrompeu-se, a voz locutora recomeçou a falar, Cala-me essa porra, minha besta, rugiu o tio, possesso, apalpando a bomba para a asma no casaco, edifícios dignos, antiquários, o jardim do Príncipe Real cintilante de luz e quase logo a seguir um tanque atravessado no pavimento, homens fardados, morteiros, viaturas da tropa, e agora um sargento a aproximar-se, abespinhadíssimo, de pistola na mão, Desapareçam daqui antes que eu vos pregue um tiro, A gente espantava-se, nunca tínhamos sonhado aparato de guerra nas ruas de Lisboa, alguns camuflados, em pinha num banco, escutavam de cabeças juntas os hinos bélicos da emissora, rodei o volante, engrenei a primeira, a marcha atrás, a primeira de novo, o sargento fitava-nos numa desconfiança veemente, e dali a dez minutos entravam aos solavancos no armazém, com a caixa da camioneta repleta de móveis.”

Mas o dia mal começou temos mais peripécias para contar. “Às onze horas apareceu o Carmindo, de motorizada, um de bigode que entrara à experiência em março e vivia com a afilhada da contabilista, tirou o capacete e os cabelos puseram-se-lhe todos em pé, Foi o sarilho das Arábias para me deixarem passar, até barcos de guerra andam no Tejo, não querem que ninguém se pire de casa, e uma onda incontrolável de pessoas sobe o Chiado na direção da PIDE, na direção do Carmo.”

O senhor Ilídio, o tio do soldado, proprietário daquele serviço de transportes, não esconde a sua perplexidade, via o negócio a afundar-se, os móveis a desfazerem-se na arrecadação, as mudanças Ilídio sem encomendas nenhumas, congemina os cenários mais apocalíticos, cadáveres por toda a parte, os hospitais inundados de feridos, pelotões de fuzilamento, bandeiras vermelhas nos edifícios públicos.

E o escritor volta aos acontecimentos:
“O general de monóculo saiu por fim do quartel da Guarda, sem se emocionar com entusiasmo, sem corresponder aos aplausos, instalou-se no carro que de imediato principiou a rodar para fora do largo, iam chegando mais tanques de guerra que apontavam os canhões ao prédio deserto, mais oficiais, mais tropa, um fulano, munido de uma alcofa, distribuía cravos.” O senhor Ilídio encontrava-se num estado lamentável: “Se levarem o Presidente do Concelho num carro blindado estamos perdidos, lamentou-se com a cabeça entre as mãos. Não tarda nada vêm-nos buscar, de pistola, aqui ao armazém.”

Voltemos ao cenário do Carmo:
“O número de pessoas no largo não cessava de aumentar, muitas delas munidas de bandeiras e aparelhos de rádio como nos desafios de futebol, as árvores eram novelos de pernas e de braços e de olhos atentos, expectantes, vorazes, um tanque destacou-se da multidão, avançou para o quartel, bocas abertas, centenas de dentes rebrilhando ao sol na espuma verde coada pelas folhas, cotovelos que me empurravam, membros que se colavam aos meus, um suor entusiástico nas narinas, e, de súbito, meu capitão, senti-me de novo com quatro, cinco, seis, sete anos, submergido pelas fantásticas, espessas, terríveis proporções dos adultos.”

Todos berram pela liberdade, há perseguições, há correrias a eventuais membros da PIDE, e volta-se ao relato do que fora vito no Largo do Carmo:
“O carro de assalto, meu capitão, acabou por desaparecer seguido por um enxame de gente, e passados momentos a multidão abandonou o largo, entoando os hinos e as cantigas da rádio, a tropa retirou-se igualmente da praça à exceção de sete ou oito gajos de metralhadora e camuflado que protegiam o quartel contra o friozinho do crepúsculo.” No armazém do senhor Ilídio, um locutor triunfal anunciava na telefonia a vitória completa do Movimento das Forças Armadas.

O tenente-coronel também tem histórias para contar. Era comandante de uma unidade militar de peso, recebe de madrugada um telefonema do seu camarada Ricardo, está no Ministério da Defesa, diz-lhe que há uns tantos palermas que andam por aí a brincar às revoluções, deverá ir até à sua unidade, o mais depressa possível, pô-los na ordem, acabar com aquelas aventuras. “O Secretário de Estado diz que não temos tempo a perder, é necessário meter essa cambada de miúdos nos eixos, a bem ou a mal, antes que aconteça um disparate qualquer. O teu quartel controla a entrada em Lisboa de quem venha do Norte, bastam meia dúzia de carros de assalto por aqui e por ali. Tens de jogar com o teu prestígio junto dos oficiais mais novos, e é escusado sublinhar que todos contamos com isso, que te pedimos que ajudes a evitar custe o que custe uma asneirada infantil.”

Acontece que este Tenente-coronel Ricardo vai aparecer depois do lado da revolução, uma daquelas metamorfoses em que se dão cambalhotas do lado vencido para o lado vencedor, e este lado vencedor nem se inquieta com o ingresso dos cristãos-novos. O Tenente-coronel Artur apresenta-se na sua unidade, diz a todos que se está nas tintas para a revolução e até mesmo para aqueles que a contrariam, ainda não sabe que dentre em breve irá trabalhar às ordens do dito Ricardo saneando no Ministério da Defesa, pela mão do nosso Tenente-coronel Artur, uma barrigada de oficiais, mais tarde haverá saneamento ao contrário, é este o fadário das revoluções.

António Lobo Antunes (1942-2026)

(continua)
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Notas do editor:

Vd. postanterior de 19 de outubro de 2026 > Guiné 61/74 - P28448: Notas de leitura (1972): "Fado Alexandrino", por António Lobo Antunes; Publicações Dom Quixote (2) (Mário Beja Santos)

Último post da série de 23 de outubro de 2026 > Guiné 61/74 - P28456: Notas de leitura (1973): "Nós, Os Filhos da Guerra", por Frederico Valarinho; Âncora Editora, 2024 (Mário Beja Santos)

segunda-feira, 19 de outubro de 2026

Guiné 61/74 - P28448: Notas de leitura (1972): "Fado Alexandrino", por António Lobo Antunes; Publicações Dom Quixote (2) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 12 de Agosto de 2026:

Queridos amigos,
O jantar dos militares está a findar, já sabemos como lhes correu a vida desde que chegaram de Moçambique, amores, desamores, sonhos, pesadelos, o tenente-coronel viúvo tem agora o apoio da porteira e mulher a dias, não é amor, é companhia, o Jorge alferes casou com a Inês, menina de famílias finas, trabalha no banco e vive jantares abomináveis em casa dos sogros, numa quinta em Carcavelos, o soldado engrenou em serviços de mudanças, empresa do tio, irão a caminho da Baixa no dia 25 de abril de 1974, não tenho dúvida alguma quando um dia se se quiserem resgatar as páginas sublimes que se escreveram sobre o 25 de abril, é inevitável retirar parágrafos luminescentes deste Fado Alexandrino. A reunião dos militares, que começou num jantar, passou agora para uma boate no Intendente, será aí, entre equilibristas e striptease, que se vai viver o 25 de abril.

Um abraço do
Mário.



Chegámos da guerra, apanhámos o fim do Estado Novo, vivemos o 25 de abril e o depois: como e porquê Fado Alexandrino, de Lobo Antunes, é um notável romance ancorado no fado de ex-combatentes – 2

Mário Beja Santos

Esta obra-prima de António Lobo Antunes teve a sua primeira edição em 1983, vem na sequência de um ciclo de romances que versam a experiência dele como tenente-médico em Angola, a sua vida profissional como psiquiatra, os desabafos sobre a sua vida íntima. Fado Alexandrino, considerado pela crítica como um dos seus textos fundamentais, justamente premiado, prende-se com a história de um conjunto de militares no período final do Estado Novo, segue-se o 25 de abril e o PREC e o culminar de um tempo de rescaldo, tudo é passado entre um jantar verdadeiramente funambulesco, a passagem por uma boate no Intendente, haverá um surpreendente final, onde não falta uma atmosfera de orgia.

Romance a várias vozes, por vezes interferindo quase em vertigem o que eles vão dizendo uns aos outros ou o que guardam para si no discurso da consciência, falando desabridamente da vida amorosa onde não faltam desastres e desencontros, no seu trabalho, da situação política do país, temos aqui um retrato da década de 1970 e o início da seguinte.

Já sabemos que há um encontro de militares, de tenente-coronel a soldado, estão a rememorar acontecimentos anteriores ao 25 de abril, vieram todos de Moçambique, terão pertencido a um Batalhão colocado em Mueda ou algures, obviamente que se seguiram itinerários diferentes, o oficial de transmissões está no uso da palavra, colocado no Ministério do Terreiro do Paço a levantar processos e autos, é esquerdista-maoísta, distribuindo folhetos à socapa, “folhetos que entregava depois do serviço nos gabinetes despovoados, toscos e tolos contos da carochinha para aldrabar ingénuos.”

E desabafa para todos os presentes no jantar:

“O que nessa época custava mais na militância política era a falta de contactos, de amigos que nos acompanhassem, da orientação dos camaradas. Nunca nos víamos, nunca nos falávamos, podíamos estar presos ou mortos só o sujeito invisível e desconhecido que nos coordenada sabia, largávamos as informações num envelope, no balcão de uma pastelaria ou de um café, mas não obtínhamos resposta, nenhum fulano convicto e grave, de cara enviesada, nos procurava.”

Intervém agora o soldado, ele está numa empresa de mudanças, iam mesmo à Feira Popular, transportando a mobília de restaurantes inteiros, as girafas, os elefantes e os cavalos do carrossel, houve mesmo cenas de amor assolapado com a Ciganita Dora. Os ex-combatentes já estão bem bebidos, o alferes sugere saírem dali e irem para uma boate do Intendente, mas as conversas estendem-se, as memórias dilatam-se. “Eu sentia o Estado Novo podre, mas firme, disse o oficial de transmissões de pálpebras descidas. Estávamos fartos da guerra, fartos das promessas não cumpridas". 

É a vez do alferes também pôr a sua escrita em dia, recorda que o seu casamento com Inês, menina que vivia num ambiente muito bem, estava a correr mal, a sogra sempre a dar ordens lá na vivenda de Carcavelos, a convidá-los para jantar em cima da hora, conversas descabeladas na viagem com a filha pequena aos gritos.

O tenente-coronel também desabafa, tem como companhia precária a porteira e mulher a dias. O soldado, o da empresa de mudanças, conta que a mulher do tio, em cuja casa ele vive, dera-lhe a trombose, descreve toda aquela cena da ida ao Hospital de São José.

“Uma espécie de claustros gelados, irreais de néon, doentes por toda a parte, cobertos de compressas, sentados no chão, olhando-nos na distintíssima altivez apática do sofrimento, macas, cobertores e camas amontoados numa confusão indescritível, arrastadeiras, algálias, algodão, tribos acocoradas de ciganos comendo em silêncio, funcionários transportando papeis, bêbados a ressonar em longos bancos de pau, gemidos, queixas, suspiros, arranques de vómitos, dois arcos de pedra, munidos dos letreiros HOMENS e MULHERES, a seguir ao relento das retretes, onde as fezes acumuladas se aparentavam a certos rochedos da vazante, e lá dentro, ativíssimos em torno de marquesas vazias, médicos de estetoscópio pendurado ao pescoço como correntes de escanção, examinando, com uma prega douta na testa, radiografias de ossos contra foscas superfícies cintilantes.” 

Seguem-se as peripécias em que os profissionais de saúde decidem que a tia volta para casa com uma receita médica.

Há um certo capitão Mendes que procura o tenente-coronel em 1973, os capitães já começaram a conspirar, Mendes informa o tenente-coronel, cujo nome é Artur de que há solidariedade ativa de todas as unidades do país, Mendes pretende saber se podem contar com o apoio expresso dele, entrega de papelada e rabuja que os militares andam fartos de servir de bode expiatório aos políticos. Segue-se uma longa introspeção de memórias deste tenente-coronel. Ainda estão no jantar, fala-se de tudo um pouco, o nosso alferes maoísta lembra que foi levado pela PIDE.

Agora sim, já estamos no Bar Boate Madrid, rememoram-se festarolas do tempo da guerra, alguém, no bar, anuncia o programa festivo que vai começar, há de tudo desde equilibristas a striptease, as vidas familiares vão-se escancarando, aqui finda a primeira parte, entramos agora na revolução, confesso que encontrei neste livro algumas das páginas mais impressivas e de alto recorte literário sobre os acontecimentos do 25 de abril, como passo a exemplificar:
“Da sala vinham marchas militares, guitarras, vozes de homem que cantavam, um locutor lia de tempos a tempos um pequeno discurso, e a seguir, após um breve silêncio interminável durante o qual o sangue estancava, suspenso nas veias, à espera, mais marchas, mais hinos, mais orfeões, mais música.”

“E foi a primeira vez, contou-me o soldado, que chegámos juntos ao armazém, esbofeteados ao longo das travessas por centenas de telefonias aos gritos. Homens de barba por fazer debruçavam-se nas janelas como bichos de buracos de maçãs, os cães derrubavam os caixotes de lixo esquecidos, o porteiro do hospital dos doidos, de pé junto à entrada, colava o transístor à orelha como se escutasse o mar nas espiras de um búzio, um friozinho acre enregelava as pernas, o tio bufava Se atiram o Governo de pantanas não descansam até arranjar outro ainda pior e nos porem de tanga a pedir esmola, Posto de Comando do Movimento das Forças Armadas, e o senhor Ilídio, amargo, Olha para os gajos, olha-me só para a alegria deles, caneco, até parece que vão salvar o mundo.”

E vamos ver seguidamente a carripana das mudanças a avançar para a Baixa, vão testemunhar a queda do Estado Novo.


António Lobo Antunes (1942-2026)

(continua)
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Notas do editor:

Post anterior de 12 de outubro de 2026 > Guiné 61/74 - P28430: Notas de leitura (1970): "Fado Alexandrino", por António Lobo Antunes; Publicações Dom Quixote (1) (Mário Beja Santos)

Último post da série de 16 de outubro de 2026 > Guiné 61/74 - P28441: Notas de leitura (1971): Artigo desassombrado sobre a Guiné, ao lado de outro de Zófimo Consiglieri Pedroso, sobre a guerra russo-japonesa na revista Brasil-Portugal, de 16 de novembro de 1905 (Mário Beja Santos)

segunda-feira, 12 de outubro de 2026

Guiné 61/74 - P28430: Notas de leitura (1970): "Fado Alexandrino", por António Lobo Antunes; Publicações Dom Quixote (1) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 10 de Agosto de 2026:

Queridos amigos,
É melhor tarde do que nunca. Não vale a pena andar a verrumar a consciência por ter esquecido este livro monumental (na dimensão e no sopro) em que intervêm ex-combatentes, gente que terá andado para os lados de Mueda, regressam nos inícios de 1970 e começam nova vida, um tenente-coronel que entretanto enviuvara e se vai meter de amores com a mulher a dias, isto muito antes de aparecer uma das figuras mais notáveis da galeria romanesca de Lobo Antunes, dá pelo nome de A nuvem de perfume; o soldado Abílio que trabalha na empresa de mudanças do tio, o oficial de transmissões que é militante de uma organização maoísta, o alferes que casa com uma menina muito bem e que nem sonha com o que lhe vai ser reservado com o 25 de abril, estão todos em jantar de convívio, há para ali um narrador que passa por capitão ou tenente, já há uns capitães em movimento, este jantar mete os desabafos mais íntimos, contam-se os desmandos que cada um vive ou está a viver... e o leitor que se prepare que o 25 de abril só vem mais adiante.

Um abraço do
Mário



Chegámos da guerra, apanhámos o fim do Estado Novo, vivemos o 25 de abril e o depois: como e porquê "Fado Alexandrino", de Lobo Antunes, é um notável romance ancorado no fado de ex-combatentes – 1

Mário Beja Santos

Esta obra-prima de António Lobo Antunes teve a sua primeira edição em 1983, vem na sequência de um ciclo de obras que versam a experiência dele como tenente-médico em Angola, a sua vida profissional como psiquiatra, os desabafos sobre a sua vida íntima. Fado Alexandrino, considerado pela crítica como um dos seus textos fundamentais, justamente premiado, prende-se com a história de um conjunto de militares no período final do Estado Novo, segue-se o 25 de abril e o PREC e o culminar de um tempo de rescaldo.

Romance a várias vozes, por vezes interferindo quase em vertigem o que eles vão dizendo uns aos outros ou o que guardam para si no discurso da consciência, falando desabridamente da vida amorosa onde não faltam desastres e desencontros, no seu trabalho, da atmosfera do país, temos aqui um retrato da década de 1970 e o início da próxima.

Abre as hostilidades o soldado Abílio, veio de Moçambique, aliás como todos aqueles que vão entrar nesta monumental sala de espelhos, é desmobilizado num quartel na Encarnação, sente-se lá e cá, sabemos que os pais, entretanto, faleceram, vai bater à porta da casa onde os pais viveram e onde agora vive a irmã Maria Otília. Vai conversando com os camaradas ao longo do jantar, conta-lhes que a irmã se juntou com o primo da porteira, um mulato que trabalhava no restaurante do aeroporto, e que a vai derreando de filhos,  de porrada, não há lugar para ele naquela casa, irá procurar o tio Ilídio, no serviço de mudanças teremos muitos pormenores mais adiante.

Intervém agora o alferes, dizendo que era casado e com uma filha pequena nessa altura, chegado de Moçambique apresentou-se no banco, tal como o soldado anda por lá e cá:
“Sentei-me no gabinete, fechei a porta e pensei Não houve guerra nenhuma, não andei vinte e tal meses em Moçambique de espingarda às costas, inventei coisas parvas esta noite: a disenteria, a água choca, os mortos, os feridos, o oficial de sapadores que ficou sem o braço ao desarmar uma mina. Pensei Não houve guerra não houve guerra não houve guerra não houve guerra, e comecei devagarinho a esquecer-me. Quando me trouxeram o café, às onze da manhã, nunca saíra de Lisboa e África era os nomes dos rios que se decoravam na escola e a gente esquecia logo a seguir, para os substituir por serras, gramática e o ramal da Beira Baixa. Olhava as pessoas, meu capitão, as secretárias, os colegas, os empregados, os contínuos, despachava requerimentos, folheava propostas, assinava relatórios, e pensava É claro que ontem estive cá, que merda devia eu para ter chupado tantos sonhos esta noite?”

A obra tem um narrador, um tanto misterioso, pensamos que por vezes é um tenente ou um capitão. Temos agora o oficial mais graduado a apresentar-se, tenente-coronel, foi comandante de batalhão desta gente, a mulher morreu-lhe de cancro, vai conversando com um oficial de transmissões, este queixa-se da vida cara, o tenente-coronel encontra a casa vazia, vazio anda ele, não deixa de meditar no futuro:

“Que vou fazer agora um ano inteiro, atrás de uma secretária, a dar ordens a sargentos bolorentos, e depois de novo Angola ou Guiné ou Moçambique e vinte e tantos meses de guerra, armas, caixões, rostos cansados de sobreviverem todos os dias ao próprio medo, à própria inquietação, ao próprio pequenino desespero tenaz a evaporar-se…”

Outra figura em cena neste jantar de largas centenas de páginas: 

“O oficial de transmissões morava com a madrinha surda e uma cadela gorda, às manchas brancas e pretas, sem raça, num andar muito velho, de salas enormes, na rua por detrás da feira popular (…) A minha madrinha morreu em setenta e cinco, gasta da PIDE ir lá a casa de madrugada, buscar-me para os interrogatórios.” 

Interrompe o tenente-coronel para se queixar da então vida sem rumo, atropela o oficial de transmissões, vai descrever a sua vida de esquerdista-maoísta, iremos até às profundezas de uma organização ultraminoritária sonha em revoluções, assaltos e atentados com esquemas de completa risota.

É a vez do alferes contar a sua história, os seus amores pela Inês, uma menina oriunda de um meio muito bem a viver numa quinta em Carcavelos, houvera casamento apressado, a Inês já ia de esperanças, o nosso alferes, que se chama Jorge, recorda que lá em Moçambique um catequista lhe vendeu uma menina, houve que pagar dote pela criança, perpassa na narrativa um dos fantasmas mais dolorosos do colonialismo.

O tal capitão, que às vezes se assume como narrador pergunta ao soldado Abílio como é que ele se adaptou ao trabalho, ele responde-lhe e bem divertido:

“Chegava às oito da manhã ao armazém, com os vidros das janelas lá no alto, junto ao teto de zinco, todos partidos, paredes fuliginosas, as palavras NÃO FUMAR, a encarnado, pálidas como batom numa camisa velha, móveis e caixotes e armários coxos que uma claridade difícil, a vara, vinda não se sabia de onde, iluminava, revelando superfícies poeirentas, estofos devorados pelos ratos, armações de bidés, a gaiola do escritório do tio à entrada. Era aí, meu capitão, do lado de fora, claro, que se aguardava o serviço do dia (Mudar o recheio do número Tal da rua Tal para a avenida Tal, trazer a tralha mais pesada de uma vivenda em Caneças, ir a este endereço de Caxias rebocar dois pianos para a Amadora), batendo as solas no chão com frio, fumando cigarrecos baratos, observando o céu descolorido pelas fendas no telhado. Havia uma espécie de galeria precária no primeiro andar, onde se deixavam as lancheiras do almoço, se mudava de roupa e se comia, com um postigo para a cerca do asilo dos malucos, na qual miseráveis homenzitos de farda castanha gesticulavam no meio de árvores polémicas. O senhor Ilídio entrava às oito e meia sem cumprimentar ninguém, soprando a sua asma feroz de pacaça num susto de roncos e de silvos, de barba crescida e olhos inflamados por insónias tormentosas, palpava o casaco à procura da chave e encerrava-se no cubículo entulhado, carimbando faturas, protestando contra a anarquia de papéis que ele próprio segregava.”

O soldado Abílio descreve os outros empregados, um velho a quem faltavam três dedos e um tipo magro que não falava nunca.

Como já se preveniu, esta escrita prima por excessos, cenas delirantes, a paixão de Abílio pela Odete, que se saberá mais adiante que é a Dália da organização maoísta, nesta altura do andamento do jantar o nosso tenente-coronel já tem informação que os capitães andam muito agitados com a possibilidade dos milicianos virem a concorrer na escala, o tenente-coronel medita na sua infância e na sua juventude e temos mais uma história de caixão à cova, o tenente-coronel mete-se de amores com a mulher a dias, a filha entra de surpresa lá em casa, cobre a boca aberta com a mão numa infinita surpresa de criança.

Vamos seguidamente conhecer a história do oficial de transmissões lá no Terreiro do Paço, a fazer vigilância em nome da sua organização maoísta, que só sonha com revoluções, atentados e raptos e irá planear um assalto a um banco, dada a sua exiguidade de fundos.


António Lobo Antunes (1942-2026)

(continua)
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Nota do editor

Último post da série de 9 de outubro de 2026 > Guiné 61/74 - P28419: Notas de leitura (1969): Nos 100 anos do historiador Padre Henrique Pinto Rema e onde fala dos Lusíadas e a Guiné (Mário Beja Santos)

segunda-feira, 16 de março de 2026

Guiné 61/74 - P27827: Caderno de notas de um mais velho (António Rosinha) (59): A terapia dos almoços da tropa

1. Mensagem de 14 de Março de 2026 do nosso camarada António Rosinha que foi Fur Mil, ainda do tempo da farada "amarela", em Angola, 1961/1962; topógrafo em Angola; emigrante no Brasil, e mais tarde na Guiné-Bissau, onde trabalhou, de 1978 a 1993, na empresa TECNIL. Entrou para o nosso blogue, em 29/11/2006, é um histórico da Tabanca Grande e autor da série "Caderno de Notas de Um Mais Velho"; tem cerca de 150 referências no blogue.


A TERAPIA DOS ALMOÇOS DA TROPA

Quem entre os 70 e os 83 anos, com alguma saúde, anseia pela convocatória anual dos almoços com os camaradas que andaram aos tiros nas ex-colónias, todos juntos, quando tinham 20 anos, com certeza que devem sentir-se uma geração historicamente diferenciada dos seus contemporâneos, que não tiveram aquela experiência.

Haverá muita nostalgia, haverá também orgulho em muitos, mas com certeza esses encontros são um alívio de tensão que dá vida e ânimo para manter a sanidade mental no seu devido lugar.

E mesmo quando nessas reuniões se invocam os nomes dos camaradas que morreram quer em combate quer pela vida fora, com ou sem visitas aos cemitérios, como se vê fazer em almoços a nível regional, missa e idas aos cemitérios, até esse recordar dos que morreram, como que completa uma obrigação de dever cumprido.

E quando se fala de muitos camaradas que ficaram com traumas e sem um tratamento adequado, podiam encontrar um bom tratamento em encontros/convívios e evitar desencontrar-se com antigos camaradas da tropa.

Mais antigos, já terão dificuldade em realizar esses encontros, uns vão desaparecendo, alguns mais entusiastas já não conseguem reunir camaradas com capacidade de deslocação com autonomia, e, no caso recente do problema do covid 19, com a interrupção aconselhada de reuniões, para muita gente esses almoços foi o fim total.

Pessoalmente, como ex-tropa da guerra de Angola, acabou-se o almoço anual, e tive a hipótese de frequentar um almoço mensal, com pessoal mais reduzido, com a interrupção do covid, não mais se retomou esse hábito.

E pessoalmente conheci ainda o poder terapêutico desses "almoços" em reuniões de retornados, que não era de jovens na casa dos vinte anos, mas em muitos casos foi com gente nos 50/60 anos... casos familiares terríveis, mas esses encontros funcionaram com muito sucesso, no "deixar para lá" e desabafar uns com os outros e retomar as rédeas da vida.

Como ex-militar, recorro muitas vezes aos lugares através do google earth para visitar os lugares por onde passei de arma ou sem arma na mão, para ver por onde passei, seja em Angola, Guiné ou Brasil, e ver como aquilo está, também essas visitas (virtuais) ajudam a encarar o nosso passado de frente.

E como diz o nosso grande escritor e também ex-militar, Lobo Antunes, que se preocupou muitíssimo comigo e todos os retornados, em que inclui grandes retornados tal como Vasco da Gama e mesmo por onde esses antigos andaram, eu gosto de visitar e desopilo imenso com isso.

Imagine-se hoje, 2026, lembrar que um desses guerreiros portugueses antigos, Afonso de Albuquerque, mandou construir o Forte Nossa Senhora da Conceição em 1515 na Ilha de Ormuz para cobrar portagem a barcos que quiserem transportar especiarias do oriente para norte e hoje nesse mesmo lugar alguém quer impedir petroleiros de transpor essa mesmíssima portagem sem pagar.

E segundo Lobo Antunes, fazem-nos falta petroleiros em frente aos Jerónimos.

Com reuniões e almoços, ou acompanhar Luisgraca de perto, não é só viver do passado, é viver a nossa história de frente.

Um abraço
Antº Rosinha

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Nota do editor

Último post da série de 22 de Julho de 2025 >Guiné 61/74 - P27044: Caderno de notas de um mais velho (Antº Rosinha) (58): O racismo em Portugal... onde ninguém sabe se os seus antepassados foram escravos ou esclavagistas...

domingo, 8 de março de 2026

Guiné 61/74 - P27805: Nomadizações de um marginal-secante (Luís Graça) (3): O beijo, tardio, da Pátria: para o António Lobo Antunes que ontem se despediu da Terra da Alegria...

Capa, à direita da edição do semanário Visão, de 27 de setembro de 2007, em que o escritor António Lobo Antunes (1942-2026) deu uma notável entrevista a Sara Bela Luís sobre "A Vida Depois do Cancro" (Vd. a antiga página, não oficial, do escritor, recuperada pelo Arquivo.pt: https://arquivo.pt/wayback/20081023014032/http://ala.nletras.com/)


1. Comentários dos nossos leitores aos postes P27802 e P3003 (*):

(i) Joaquim Costa

Subscrevo. Esta geração vai a chegar ao fim sem o tal beijo!
sábado, 7 de março de 2026 às 16:05:39 WET

(ii) Hélder Sousa


Muito oportuna esta repescagem. E que bem escrito! E que comovente! Só não se comoverá quem não conseguir "sentir" os ambientes. E, sim, a geração vai seguir o seu destino sem "beijos de despedida" pelo Poder. Mas talvez até seja bem melhor assim, sem falsidades, sem hipocrisia.
saábado, 7 de março de 2026 às 16:38:55 WET

(iii) Alberto Branquinho

(...) Vamos ver se conseguimos saber o número do micro-ondas para verificar se ainda mora lá alguém? (...)
sábado, 7 de março de 2026 às 17:37:37 WET

(iv) Abilio Duarte

Simplesmente bonito...que este camarada Lobo Antunes, descanse em paz.
sábado, 7 de março de 2026 às 18:15:38 WET

(v) Santos Oliveira

Também me correm algumas lágrimas, Graça Abreu, de alguma raiva e muita desilusão, pela minha impotência de não ver a minha Pátria, em nome de quem lutámos e morremos, ter dignidade para reconhecer, sem panaceias, o que é de plena justiça. Grato, Graça Abreu, por nos trazeres ao de cima as palavras do A.Lobo Antunes. No fundo, são uma âncora que nos amarra a uma esperança, e que, para nós, será a última a morrer.
segunda-feira, 30 de junho de 2008 às 18:49:00 WEST 

(vi) Hélder Sousa

Muito obrigado amigo A. Graça Abreu por teres tido a lembrança de colocares à disposição de todos (assim o entenderam, e bem, os nossos editores) este belo, duro e comovente artigo do Lobo Antunes. O raio do homem escreve mesmo bem e, quanto a entender estes sentimentos de quem andou "a batê-las lá longe", no mato, "onde o sol castiga mais",  é duma sensibilidade e acutilância, envolvida na crueza das situações, que é mesmo como se ainda estivesse tudo fresco.
terça-feira, 1 de julho de 2008 às 00:11:00 WEST 



2. Nenhum de nós, aqui, no blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné, seria levado a sério se escrevesse o que António Lobo Antunes escreveu, na sua crónica habitual na revista 
Visão, edição de 19 de Junho de 2008, a propósito dos antigos combatentes,  e que o nosso António Graça de Abreu em boa hora repescou, replicou e nos pediu para publicar (*):

"Que o País os beije antes de os deitar fora, e lhes peça desculpa!"...

O antigo alferes miliciano médico do BART 3835 (Angola, 1971/73) e em 2008 já famoso, aquém e além fronteiras, como escritor, põe o dedo na ferida da guerra colonial, ainda longe de ter sarado. 

Aliás, mesmo mais de meio século depois, é uma ferida que custa a sarar. O país espera que morramos todos, uns atrás dos outros ou então em massa, na próxima pandemia que há de vir: quando morre o bicho, morre a peçonha. 

Mas é aqui que o António Lobo Antunes, que também andou pelo "cu de Judas", volta bater na tecla do abandono e da ingratidão da Pátria em relação aos seus antigos combatentes. 

Para além do que o António Graça de Abreu, oportunamente acrescentou (*), apraz-nos registar mais o seguinte, podendo todavia esse mais parecer se redundante e até irritante (**).

2. Esta crónica do Lobo Antunes, já com 18 anos, não perdeu atualidade e também não passou despercebida a alguns de nós. 

Para além da sua beleza literária,  há aqui mágoa e dor que só quem viveu a guerra colonial pode compreender na sua plenitude. Não importa por onde passou (Angola, Guiné, Moçambique, Índia Portuguesa, Timor...). (Dor e mágoa que outros portugueses de antanho também sentiram e expressaram, com ironia ou sarcasmo,  de Camões ao padre António Vieira.)

Em homenagem ao camarada e ao escritor que ontem se despediu da Terra da Alegria (e que em vida sobreviveu a 3 cancros), permitam-me,  os nossos caros  leitores,  que destaque alguns pontos-fortes do texto (ou dos excertos que foram republicados) (*):

(i) A fraternidade dos "irmãos de armas"

Lobo Antunes não idealiza a guerra, mas também não nega a fraternidade que ela cria (ou criou, no seu/nosso caso) entre homens que, de outra forma, nunca se teriam cruzado em África 

A expressão "irmãos de armas" não é uma figura de retórica: é literal. E é talvez até vez mais do que irmãos de sangue, diz ele. 

O texto aca por ser um hino a esses laços de camaradagem que sobrevivem ao regresso a casa, à "peluda", à solidão, e até à miséria, à doença, ao esquecimento.

 O Cabo Sota, o "Pontinha", o Zé Jorge... são todos heróis anónimos, cujas vidas o país esqueceu, mas cujas histórias o Lobo Antunes (e nós, aqui, no Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné) nos recusamos a deixar apagar.

Quem passou pelos vários teatros de operações (Angola, Guiné, Moçambique, mas também Índia Portugues, Timor-Leste...) sabe bem o que é essa fraternidade forjada no fogo e, em muitos casos, no abandono. 

A guerra não escolheu lados, escolheu vítimas, e os que sobreviveram, carregam, de algum modo, a marca dessa irmandade até hoje.

(ii) O humor não como arma de arremesso como escudo protetor:

A cena do "Pontinha" e do microondas é de uma comicidade trágica. O "Pontinha" não tem telemóvel... "Não meu furriel, mas a minha mulher tem um microondas."

É o humor (desconcertante) dos que não têm nada, dos que sobrevivem à custa de muito pouco, incluindo os que entretanto morreram precocemente, sem abrigo, sem saúde, e que mesmo assim encontra(ra)m forma de rir. 

 Os antigos combatentes dão provas, nos seus convívios, nos seus testemunhos (orais e escritos) da notável capacidade, própria do ser humano, que é de rir do absurdo, muitas vezes para não chorar.

Lobo Antunes usa o humor, a ironia, o sarcasmo para "desarmar a dorm", para exorcizar os pesadelos... Não é por acaso que o texto termina com a piada do microondas: é uma forma de dizer que, apesar de tudo, a vida continua, mesmo que seja à custa de um electrodoméstico (empresta)dado. Afinal, hoje quem não é o pobre diabo que não tenha um telemóvel?!


(iii) A crítica ao abandono

"Que o País os beije antes de os deitar fora, e lhes peça desculpa."

Esta frase é um murro no estômago. É a denúncia de um país que usou os seus filhos como moeda de troca numa guerra sem sentido, que as elites, o poder político (e militar), sabiam (ou tinham a obrigação de saber) que estava a ser feita no "beco sem saída da História" ) e depois os atirou para o caixote do lixo quando já não serviam ou chegavam ao fim do prazo de validade.

Sabemos do que fala Lobo Antunes, explícita ou implicitamente: a falta de liderança política, de lucidez histórica, de visão estratégica da guerra., mas também de "genuino amor" pelos seus soldados portugueses, guineenses, cabo-verdianos, angolanos, moçambicanos, etc., que, na guerra, deram o seu melhor (e,  mais de 10 mil, a vida). 

 Quem lá esteve, sabia, de maneira mais lúcida ou mais confusa, o que era esse beco sem saída em que nos atolámos.

Mas não posso deixar de destacar o comentário final do nosso António Graça de Abreu, quando também evoca (e exorta) os combatentes da Guiné-Bissau que estiveram nos dois lados da barricada:

(...) "Camaradas de Portugal e da Guiné, depois de ler este texto, duas grossas lágrimas correram-me pelo rosto. Que o nosso País nos 'beije antes de nos deitar fora e nos peça desculpa'. Que a vossa Guiné-Bissau vos beije também, 'antes de vos deitar fora e vos peça desculpa.'

Sem complexos nem traumas de colonialista, sem complexos, sem traumas de colonizado, vamos ler outra vez o texto do António Lobo Antunes". (...)


E conclui: "Depois, vamos adormecer em paz."

Obrigado, Lobo Antunes, obrigado, Graça de Abreu. É uma frase que reconhece que a dor não foi só de um lado.  Quantos guineenses, fulas, balantas, mandingas, biafadas, papéis, manjacos, etc., de um lado e do outro, não foram usados e deitados fora!

Em muitos casos, o "beijo da Pátria" já virá tarde, se algum dia chegar a vir...

(iv) Nem santos nem heróis

Lobo Antunes recusa a glorificação da guerra. Aqui não há heróis aqui. Há apenas homens. "Eram duros"; eis o maior elogio que se pode fazer.  Não há medalhas, não há discursos pomposos, não há paradas do 10 de junho. Há apenas a resistência silenciosa de quem aguentou o que ninguém deveria ter aguentado, ao longo de tanto tempo...

Para ele, que era médico e, de algum modo, um marginal-secante, a guerra é um absurdo, e aquela guerra um absurdo prolongado. A verdadeira coragem não estava, por isso, nos feitos de guerra, mas na capacidade de sobreviver a ela sem perder o rosto humano, a  humanidade. Lobo Antunes sabia que a guerra não cria santos,  cria homens quebrados, mas também homens que, apesar de tudo, se recusam a deixar de ser humanos.
 
(v) O legado de Lobo Antunes 

Lobo Antunes, nesta crónica (e noutras ocasiões) (***),  deu voz aos que a não tinham. Lobo Antunes, com a sua prosa poética, polifónica, cortante e genial,  faz o que nós aqui fazemos (ou procuramos fazer), discretamente, sem o talento dele.  que é impedir que o esquecimento apague o que não pode ser apagado, é recusar a "vala comum do esquecimento", é reivindicar o direito à memória, é exercer o direito de memória.

No final, apetece-me, sem imodéstia, repescar e refrescar o meu velho poema "Quando o Niassa apitou três vezes" (que remonta a 24-29 de maio de 1969)...Tanto este poema como a crónica do Lobo Antunes aqui citada falam da mesma coisa: da partida, do regresso, e dos que ficaram pelo caminho, mas também dos que voltaram, sem nunca terem realmente regressado (nesta, como de resto em todas as guerras, é bom que se diga!).
 _______________


Vd. também poste de 30 de junho de 2008 > Guiné 63/74 - P3003: Blogoterapia (58): Que o País os beije antes de os deitar fora, e lhes peça desculpa (António Lobo Antunes / A. Graça de Abreu)

(***) Vd. por exemplo poste de 9 de outubro de 2007 > Guiné 63/74 - P2169: Antologia (63): Zé, meu camarada, eras um dos nossos e cada um de nós um dos teus (António Lobo Antunes, Visão, 4 Out 2007)

sábado, 7 de março de 2026

Guiné 61/74 - P27802: In Memoriam (575): António Lobo Antunes (1942-2026): "Que o País os beije antes de os deitar fora, e lhes peça desculpa" (seleção de uma crónica de 2008, por António Graça de Abreu)


António Lobo Antunes (1942-2026) (*)
Foto: Cortesia de Instituto Camões (2018). com a devida vénia.
Editada pelo Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné (2026)


Que o País os beije antes de os deitar fora, e lhes peça desculpa

por António Lobo Antunes / António Graça de Abreu


Caríssimos tertulianos, camaradas e amigos:

António Lobo Antunes, enorme escritor, foi alferes médico no leste e centro de Angola, de 1971 a 1973.  Na sua crónica na revista Visão, ontem, quinta feira, a 19 de Junho de 2008, escreveu:

(…) Todos os anos a minha companhia lá da guerra [CART 3313 / BART 3835, Angola, 1971/73] faz um almoço com os que sobejam da miséria em que andámos. 

Não neste último almoço, no penúltimo, o furriel Firmino Alves começou a anotar os telemóveis dos nossos camaradas para os contactos da refeição seguinte, até que chegou ao 'Pontinha'. 

'Pontinha' é a alcunha do ordenança da messe de oficiais, que morava na Pontinha. Como a cabeça dele era grande (continua a ser grande), chamavam-lhe também 'Porta-aviões', porque dava para os aviões aterrarem.

O 'Pontinha', como muitos dos soldados, vive com dificuldades. Ao fim de semana engraxa sapatos para equilibrar o orçamento.

(…) Falar dos meus camaradas comove-me: a expressão irmãos de armas é tão verdade. Enquanto nos aguentamos por cá. Mesmo depois. Zé Jorge, continuamos irmãos de armas. Cabo Sota: admiro a tua coragem até ao fundo da alma. Sozinho com a Breda, uma metralhadorzeca, aguentou um ataque. E vive mal, percebem? Como se deixa viver mal um herói? Ao acompanhá-lo ao táxi em que voltava, doente, ao Alentejo, avisei o condutor:

- Você leva aí um grande homem, sabia, um dos maiores homens que conheço e, como todos os grandes homens da guerra, de uma infinita modéstia, bondoso, sereno. Não lhe chego aos calcanhares. Cabo Sota, tu mereces a continência de um general. O Zé Luís, oficial de operações especiais que em matéria de coragem não necessitava de aprender com ninguém:

- Eram duros

expressão que constitui para nós o supremo elogio. Adiante. Contava eu que o furriel Firmino Alves anotava os telemóveis até que chegou ao 'Pontinha' e como fizera com os outros perguntou:

- Tens um telemóvel, 'Pontinha'?

E o 'Pontinha' logo a mostrar serviço:

-Não, mas a minha mulher tem um microondas.


(…) Boaventura, Nini, Licínio, vocês todos, caramba, como a gente somos irmãos. Unamuno, que muito respeito, tem páginas admiráveis sobre a valentia dos portugueses. 

Tens razão, Zé Luís, eram duros. Ganas de explicar às mulheres deles, aos filhos deles, o orgulho que tenho em ser amigo dos pais, em que os pais sejam meus amigos. Não: irmãos de armas. Não: irmãos. E bons como o pão. 

Ao lado disto que maior elogio se pode fazer? Ao menos que o País os beije antes de os deitar fora e lhes peça desculpa. E há mais anjos para além dos padeiros, de arma nas unhas mata fora. 

Nenhum deles é banqueiro, claro. Nem administrador. Nenhum deles joga golfe. Jogaram golfe num campo de um só buraco onde não é a bola que cai. É um rapaz de vinte anos.

E acabo aqui, antes que seja tarde para marcar o número de um microondas. (...)


Camaradas de Portugal e da Guiné, depois de ler este texto, duas grossas lágrimas correram-me pelo rosto. Que o nosso País nos “beije antes de nos deitar fora e nos peça desculpa”. Que a vossa Guiné-Bissau vos beije também, “antes de vos deitar fora e vos peça desculpa.”

Sem complexos nem traumas de colonialista, sem complexos, sem traumas de colonizado, vamos ler outra vez o texto do António Lobo Antunes.

Depois, vamos adormecer em paz.

Um abraço,
António Graça de Abreu
S. Miguel de Alcainça,

20 de Junho de 2008
Ano do Rato
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Nota do editor  L.G.:

(*) Último poste da série > 6 de março de 2026 >
Guiné 61/74 - P27801: In Memoriam (574): António Lobo Antunes (1942-2026): até sempre, camarada! (Luís Graça)

sexta-feira, 6 de março de 2026

Guiné 61/74 - P27801: In Memoriam (574): António Lobo Antunes (1942-2026): até sempre, camarada! (Luís Graça)


António Lobo Antunes, alf mil médico,
Angola, c. 1971/73, nosso camarada
antes de ser escritor famoso.
Foto: arquivo da família, com a devida vénia,
editada pelo Blogue Luís Graça & Camaradas
da Guiné (2026)


1. O António Lobo Antunes morreu ontem, dia 5, quinta feira, aos 83 anos (*). 

Um dia, daqui a uns anos, vai ter honras de Panteão Nacional, a avaliar pelas homenagens que o país e as suas elites lhe estão a prestar. 

Hoje o seu corpo está em câmara ardente, desde as 16h00, na Igreja de Santa Maria de Belém, no Mosteiro dos Jerónimos, um privilégio que é só para os nossos "maiores". O Governo decretou um dia de luto nacional em sua homenagem. Vai ser amanhã, dia em que se realiza o seu funeral.

Vai ser também condecorado, a título póstumo, com o Grande-Colar da Ordem de Camões, 
por serviços relevantes à língua portuguesa e à projeção  da cultura lusófona no mundo. Como sabemos, foi durante  anos e anos um "nobelizável", um candidato ao Nobel. 

Como alguém disse (o editor e escritor Francisco José Viegas, entrevistado ontem pelo "Diário de Notícias"), não foi o Lobo Antunes que perdeu o Nobel, foi o Nobel que perdeu o  Lobo Antunes. Como perdeu muitos grandes escritores universais, desde o russo Tolstói ao irlandês James Joyce, do argentino José Luís Borges ao  nosso Fernando Pessoa (os suecos têm uma desculpa: não podiam adivinhar o que estava lá dentro, no seu baú)...

Segundo a RTP,  e de  acordo com a agência funerária responsável, as cerimónias fúnebres realizam-se, sábado,  a partir das 10h00, com a celebração de uma missa de corpo presente,  pelas 12h00.

 O funeral seguirá depois para o cemitério de Benfica, em Lisboa, o bairro onde ele nasceu e cresceu, e que é também uma das fontes primordiais das suas memórias.

Recorde-se que o António Lobo Antunes  (um de seis irmãos de uma "ínclita geração") foi nosso camarada, tendo cumprido o serviço militar como alferes miliciano médico, em Angola, no BART 3835 (1971/73), e tendo ficado com uma ligação muito especial à malta da CART 3313.

O título deste poste pode parecer  ser pretensioso: "até sempre, camarada!"... Mas, não, não estamos a pôr-nos no pedestal, à boleia desta triste notícia necrológica: afinal, ele foi nosso camarada, mesmo sendo o Dr. Lobo Antunes, e antes de ser um escritor famoso, tendo cumprido o serviço militar como alferes miliciano médico, em Angola, no BART 3835 (1971/73). Ficou com um ligação muito especial ao pessoal da CART 3313. E emocionava-se ao falar, em público, dos seus camaradas de armas.

Contrariamente ao que alguns pensam ou opinam, ele não foi o chefe de fila da literatura da guerra colonial, embora a guerra colonial seja um tema recorrente e obsessivo dos seus livros (e são mais de 4 dezenas). Mas, se não fosse a guerra, muito provavelmente ele nunca teria sido o escritor que foi (e é, porque as suas obras vão sobreviver à sua morte física).

Mas todos reconhecemos que os seus primeiros livros tiveram um efeito de catarse na nossa geração de antigos combatentes, surgidos a partir de 1979, com Memória de Elefante, Os Cus de Judas,  Conhecimento do Inferno (1980), Explicação dos Pássaros (1981)..., obras marcadas pela sua experiência da guerra e pela sua prática clínica como jovem psiquiatra. 

Tornou-se, de facto, o escritor de cabeceira de muitos de nós, nessa época. Nós, que com o 25 de Abril, tínhamos posto uma pedra em cima do vulcão das nossas memórias da guerra, da sua violência e do seu absurdo.

Temos 33 referências no nosso blogue ao António Lobo Antunes, e nem uma ao José Saramago, outro "mal-amado", o que não representa qualquer discriminação. Simplesmente, o José Saramago (1922-2010) não tinha vivências de (nem escritos sobre) a  guerra colonial. Era mais velho, era da geração dos nossos pais. (Referências, acrescente-se, que são, em boa parte, devidas às notas de leitura do nosso crítico literário, o Mário Beja Santos.)

Por estes dias vai-se falar, "ad nauseam!", do escritor e do homem, o António Lobo Antunes, que em vida tinha fama de "enfant terrible".  Muitos que o detestavam (sem nunca o terem lido...), vão pô-lo agora no altar da Pátria. Tem acontecido a todos os nossos grandes escritores. De Camões a Fernando Pessoa. É sempre assim, na hora da morte, ou muitos anos mais tarde (no caso de Pessoa). A morte  tem o condão, em Portugal, de fazer uma besta passar a bestial....

Conheço histórias (e anedotas) da vida dele (e algumas deliciosas mas impróprias para meninos de coro), porque ambos estávamos ligados à saúde, e de algum modo modo à psiquiatria, e ao Hospital Miguel Bombarda. E porque Lisboa é (ou ainda era nos  anos 80/90) uma aldeia. A relação do escritor com a sua "corporação" nunca foi fácil. Afinal, ele era um iconoclasta e um exorcista. Mas em 1986 os seus romances já eram "best-sellers".

A última vez que o vi, já depois da pandemia de Covid-19, foi num hospital privado, onde fui fazer um teste de avaliação neuropsicológica de diagnóstico precoce e diferencial de demências (sempre mais vale prevenir do que remediar, camaradas...).

Fiquei chocado de o ver: passou por mim, ia numa cadeirinha de rodas, empurrada por familiares, entubado, cabisbaixo, ao longo do corredor. O verdadeirpo retrato da nossa miserável condição humana. Bolas, não fomos feitos para sofrer e morrer (nem para matar...), dizia ele, nas inúmeras  entrevistas que deu. No elevador, encontro depois, nessa mesma tarde, a descer comigo no elevador, um outro grande escritor, o poeta algarvio Nuno Júdice (1949-2024), que morrerá uns tempos mais tarde... 

Escrevi no meu bloco de notas, nesse dia: "se calhar escrever, é isso mesmo, uma ilusão de eternidade, um combate (sempre desigual) contra a morte, o esquecimento, o absurdo da vida".

Fui repescar também o que escrevi sobre ele, no nosso blogue, há quase 20 anos atrás:

(...) "O Lobo Antunes conheceu, no Hospital de Santa Maria, aos 65 anos, a terrível e frágil condição do doente oncológico... 

Em março de 2007 deixou-se operar por um amigo de longa data. Ele próprio revelou, em crónica publicada na Visão (12 de Abril de 2007) e ainda escrita no hospital, que estava a lutar (mal) com um cancro...

Na crónica da última semana, publicada na Visão (4 de Outubro de 2007), evoca com grande ternura e com o seu talento de escritor genial o seu camarada Zé, que terá falecido recentemente em brutal acidente de viação na autoestrada de Cascais. Dele diz: 'África ficou para sempre dentro de ti, a roer-te, e deu cabo da tua vida'...

A crónica começa assim, dando a melhor definição que eu alguma vez li sobre o que é ser um camarada. Só o Lobo Antunes poderia escrever isto:

'Não morreste na cama mas morreste entre lençóis de metal horrivelmente amachucados na auto-estrada de Cascais para Lisboa e a gente ali, diante do teu caixão, tão tristes. Eras meu camarada, que é uma palavra da qual só quem esteve na guerra compreende inteiramente o sentido: não é bem irmão, não é bem amigo, não é bem companheiro, não é bem cúmplice, é uma mistura disto tudo com raiva e esperança e desespero e medo e alegria e revolta e coragem e indignação e espanto, é uma mistura disto tudo com lágrimas escondidas' (...). (**)

Nunca o conheci na intimidade, mas apenas como figura pública, e esporadicamente nas feiras do livro de Lisboa. Não fazia parte da Tabanca Grande. Nem nunca poderia fazer parte. Além de nunca  ter escrito sobre a Guiné, ao que eu saiba (nem por lá ter passado), não tinha, ao que se consta, email, computador ou telemóvel (nem carro)...

Não deixava por isso de ser nosso camarada, naturalmente ilustre. Tivemos aqui algumas picardias, de que ele nunca teve conhecimento porque também não nos lia, mas também nos demos conta, rapidamente, de que o mal-entendido foi nosso, que não o sabíamos ler nem tresler (***).
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Notas do editor LG:

(*) Último poste da série > 5 de março de 2026 > Guiné 61/74 - P27796: In Memoriam (573): Rui Manuel da Silva Felício (Coimbra, 09/10/1944-Ericeira, Mafra, 26/02/2026): Cerimónia fúnebre, hoje, às 14 horas, na igreja de Santa Marta de Casal de Cambra e cremação, amanhã, às 14 horas, no Complexo Funerário de Casal de Cambra

(**) Vd. poste de 6 de outubro de 2007 > Guiné 63/74 - P2161: Pensamento do dia (12): Camarada, uma palavra que só quem esteve na guerra entende por inteiro (António Lobo Antunes)

(***) Vd. poste de 25 de setembro de 2010 > Guiné 63/74 - P7034: Carta aberta a... (4): Camarada (de armas) António Lobo Antunes (António Graça de Abreu)

segunda-feira, 27 de outubro de 2025

Guiné 61/74 - P27357: Notas de leitura (1856): Escritos de médicos que viveram a guerra colonial (Mário Beja Santos)

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 24 de Fevereiro de 2025:

Queridos amigos,
Feliz a hora em que o médico Adélio Martins convocou a malta do seu curso para pôr por escrito recordações da experiência de alferes miliciano médico, e num punhado de páginas ficamos a saber que um feiticeiro ganhou a um médico por saber pôr um elefante a defecar, houve alguém que soube da história de como se fazia uma armadilha em cruz, ouvido o estrondo estalou a alegria no aquartelamento e foram todos ver um espetáculo devastador naquela confusão de pedaços humanos, com tanta gente em regozijo por ter funcionado bem aquela arma mortífera; há quem venha contar o que era ser médico em Mueda e conviver com camaradas médicos já em estado de transtorno, um deles afeiçoado a um cágado; houve quem desertou e venha agora agradecer ao Antigo Regime ter um casamento que dura há cerca de 50 anos... Há quem esteve na região dos Dembos, quem vivesse no centro de Luanda e tenha sido confrontado com os tiroteios da guerra civil, e ouviremos de novo histórias do escritor Rui Sérgio, o médico Rui Vieira Coelho que tem aparecido regularmente no nosso blogue, são belos testemunhos, um enriquecimento nestas intervenções que nos põem sempre a pensar nas dívidas com que deles ficámos.

Um abraço do
Mário



Escritos de médicos que viveram a guerra colonial

Mário Beja Santos

O escritor Rui Sérgio tem tido a gentileza de me fazer chegar através da editora 5Livros.pt todos os seus escritos relacionados com as memórias como médico do BCAÇ 3872, sediado em Galomaro, leste da Guiné, que conheci nos bons tempos em que se ia de Unimog por toda esta região, é certo que armados, mas cientes de que a região estava pacificada, graças a um régulo destemido, o Tenente de 2.ª linha Mamadu Sanhá.

Acabo de receber um livro editado em 2020, também pela 5Livros.pt, foi um desafio que o médico Adélio Martins lançou a colegas de curso para escreverem um conto relacionado com as suas experiências em terras de África. O resultado é tocante, mas talvez valha a pena refletirmos que possuímos um legado de testemunhos de profissionais de saúde. 

Não vale a pena acrescentar mais ao muito que aqui se tem publicado sobre as nossas enfermeiras, o escritor João de Melo foi enfermeiro em São Salvador, daí resultou um notável romance Autópsia de um Mar de Ruínas (recomendo a 1.ª edição), os primeiros romances de António Lobo Antunes estão profundamente marcados pela sua vivência em território angolano, e é também bem merecedor de leitura a correspondência que travou com a sua mulher em tal período; na mesma época em que António Lobo Antunes se lançava na escrita, outro médico, Abílio Teixeira Mendes, publicou um escrito magnífico, deploravelmente esquecido; e continuo a pensar, ao nível de escritos de médicos, que as memórias de José Pratas, Senhor médico, nosso alferes, está no pódio de narrativas de médicos quanto à Guiné.

Quanto a estes contos de guerra coordenados por Adélio Martins, há quem chegue na noite de 24 de dezembro inesperadamente a casa, tocou campainha e “no ar havia o cheiro a doces e o vapor da água das panelas que em breve se encheriam para a ceia, noite de Natal inesquecível!” 

Há aquele cego na enfermaria que recalcitra por um camarada não o ter levado ao futebol, o outro responde que não o levou porque ele está cego, “estou cego mas podia ouvir”, isto passou-se na cidade da Beira; havia um enfermeiro que fazia desaparecer medicamentos para levar para a FRELIMO, mais concretamente ampolas de estreptomicina que faziam falta aos guerrilheiros; há aquela história de um médico chamado à pressa lá no Fingue, no norte de Moçambique, para fazer defecar um elefante, caso tal não acontecesse, seria mau presságio, o médico falhou, quem entrou em ação foi o feiticeiro.

Há um médico que reflete dolorosamente sobre a alegria que alguns sentiam quando as armadilhas desfaziam em pedaços os guerrilheiros da região. Houvera quem inventasse a armadilha em cruz. 

“Consistia num dispositivo que continha cargas explosivas ao longo do percurso da picada, e noutra linha, cruzando a picada, nova fila de explosivos, de maneira a formar uma cruz imensa, onde no centro era montado o sistema de detonação, ativado por um fio de metal que atravessava de um lado ao outro a picada, uns bons metros. Assim, em qualquer direção que se caminhasse, de norte para sul, pelo lado direito ou pelo lado esquerdo da picada, todos eram apanhados, mesmo que se viessem a caminhar mais na retaguarda. Era uma cruz imensa de explosivos, uma obra de arte, como dizia o meu camarada especialista em minas e armadilhas.”

A armadilha resultou, ao amanhecer, ouviu-se um estrondo, uma súbita alegria e gritos de contentamento encheram o aquartelamento, seguiu prontamente uma patrulha, o espetáculo era devastador, numa extensão de metros e metros inúmeros corpos jaziam espalhados e dispersos pelo chão, a alegria dos soldados é exuberante. 

"E eu olhava-me por fora de mim, ator e espetador da cena, cobarde por não sentir a alegria pela morte dos outros e por não sentir tristeza com a alegria deles. Amarrado neste paradoxo de ter de viver em simultâneo o agrado por dever e o desagrado por sentimento, sentia-me também preso nesta armadilha em cruz.”

Há quem descreva Mueda como uma fortaleza rodeada de arame farpado, com uma Base Aérea, Companhias de Engenharia, Serviço Jurídico, tropa fandanga, grupos especiais e um hospital de campanha com cinco médicos. O estado de espírito destes profissionais de saúde era pouco abonatório. 

"Um havia, que nos lia as cartas da mulher, em que ela pedia para tomarmos conta daquela alma frágil. Não era caso para menos. Cirurgião com medo de ir ao bloco, adotou um cágado, do tamanho de um palmo, por quem se afeiçoou.” 

Não esqueceu as suas deslocações a Ibo, Mocímboa da Praia e Mocímboa do Rovuma. O Natal de 1974 foi diferente, a ceia do bacalhau foi disputada com os guerrilheiros.

Há quem conte a sua deserção, um casamento que caminha para meio século com uma alemã.

“Tenho de agradecer ao Antigo Regime a oportunidade que me deu ao obrigar-me a sair de Portugal por motivos de consciência. Não digo motivos políticos pois eu era nessa altura pouco maduro, fazia mais barulho que trabalho. O meu pai teve em Angola dois filhos, meus meios-irmãos, cerca de 20 anos mais velhos do que eu, ambos estavam no MPLA. O meu irmão Gino estava nas Forças Armadas e a possibilidade de ter pela frente um irmão inimigo era real.”

Há quem acordou com as balas a entrar pela janela do quarto, médico que apanhou a guerra civil ao rubro, há aquele médico a viver em Nambuangongo que conhecia por cópia datilografada aquele que eu considero o mais belo poema da guerra colonial, Nambuangongo, meu amor, viveu as peripécias de um parto inesperado, conta o que era viajar num Auster ou num DO, houve um episódio inesquecível, uma evacuação por fratura do úmero, o médico explica que o jovem soldado tinha o braço muito bem imobilizado com múltiplas ligaduras que o mantinha solidário com um triângulo de tábuas. A tábua vertical estava enfaixada ao tronco e a oblíqua obrigada o braço a estar esticado, como mandava a figurinha do manual de primeiros socorros da Segunda Guerra Mundial. Terá havido um alvoroço e uma precipitação por parte do piloto, o pobre soldado andou aos repelões, tudo se desconjuntou, o ferido bem penou até chegar ao hospital.

E chegou a vez de entrar em cena Rui Sérgio, lembra com muita saudade a Companhia Dulombi, jamais esqueceu as colunas de 18 km até Galomaro, ou vice-versa. Ele fazia a sua consulta militar num posto de saúde acompanhado por um furriel enfermeiro e havia um encarregado civil pela limpeza, o Jamba, homem de porte atlético, com uma face de quase riso permanente. Pois o Jamba em certa altura passou a andar acabrunhado, o médico ouviu confidencialmente, tinha havido um feitiço, já não era um homem, perdera a ereção, o médico deu-lhe uma mezinha, foi ao quarto e trouxe um comprimido efervescente de vitamina C.

"Bebe Jamba, tudo de uma vez e daqui a cerca de uma hora vais à tabanca ver a mulher.”

Voltou duas horas depois, sorridente, voltara-lhe a força, tudo graças à eficácia psicológica de um comprimido efervescente de vitamina C.

Recordações magníficas, ficamos com estes médicos no coração.

Médico Rui Vieira Coelho, escritor Rui Sérgio
O Alferes-médico Defensor Moura quando se candidatou às presidenciais, tinha programa para os antigos combatentes
Alferes miliciano médico Manuel Vieira da Costa Neto, da CCAV 680/BCAV 682, Cruz de Guerra de 4.ª classe
Alferes-médico Abílio Teixeira Mendes
Alferes-médico António Lobo Antunes
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Nota do editor

Último post da série de 24 de outubro de 2025 > Guiné 61/74 - P27348: Notas de leitura (1855): "Ecos Coloniais", coordenação de Ana Guardião, Miguel Bandeira Jerónimo e Paulo Peixoto; edição Tinta-da-China 2022 (3) (Mário Beja Santos)